APRESENTAÇÃO

OS JOGOS NO ENSINO

Cada vez mais os jogos estão presentes no ensino. Esses jogos constituem uma forma interessante de apresentar problemas, pois permitem que estes sejam apresentados de forma atrativa e que favoreçam a criatividade dos estudantes na elaboração de estratégias e táticas necessárias a resolução desses problemas, além de estimular o planejamento de suas ações e as consequências trazidas por elas. A introdução a esses jogos no ensino é prevista pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), que sugere que “nos jogos de estratégia parte-se da realização de exemplos práticos que levam ao desenvolvimento de habilidades específicas para a resolução de problemas e os modos típicos do pensamento matemático” (BRASIL, 1998, p.47).

Além disso, os jogos são essenciais para a formação de indivíduos autônomos. Como ressalta Piaget (1962, p. 162) que diz que o jogo constitui o polo extremo da assimilação da realidade no ego, tendo relação com a imaginação criativa que Serpa fonte de todo o pensamento e raciocínio posterior. Assim, é perceptível que os jogos precisam ser inseridos na vida do indivíduo desde os primeiros anos de vida, principalmente no meio escolar. É nessa fase que a criança sente a necessidade de agrupar-se para praticar diversas atividades, como os jogos. Assim, os jogos constituem também uma maneira interessante de desenvolver relações socioafetivas. Podemos dizer que o jogo é um instrumento altamente didático e importante. É mais que uma diversão, é um meio que pode auxiliar na aprendizagem, disciplinar o trabalho do aluno e ensiná-lo comportamentos básicos que podem ser necessários na formação de sua personalidade (Almeida, 1978).

Existem diversos jogos aplicáveis que estimulem as características educacionais citadas acima. No entanto, se destaca aquele que é conhecido com o Rei dos Jogos: o Xadrez.

 

POR QUE O XADREZ?

Pimenta (2006) aponta a implementação do jogo de Xadrez como uma atividade de suma importância para o exercício do raciocínio lógico. Também ressalta que o jogo de Xadrez vem enriquecer não somente o nível cultural do indivíduo, mas outras capacidades como agilidade no pensamento, segurança na tomada de decisões, capacidade de concentração, entre outros.

Outro ponto significante, enfatizado por Sá (2003, p.3) é a capacidade dos estudantes desenvolverem o seu próprio ritmo de aprendizagem no jogo: “Mas, o principal mérito da aprendizagem enxadrística, desde que adotada ludicamente, repousa no fato de permitir que cada aluno possa progredir seguindo seu próprio rito e, assim, atender a um dos objetivos primordiais da Educação.”

Outra importante característica do jogo de Xadrez é que ele ajuda a desenvolver habilidades em diversos níveis. Christofoletti (2005, p.2) destaca:

“O aspecto do raciocínio lógico, no jogo de Xadrez, a criança passa a ter contato com diversos exercícios que lhe são propostos, nos quais ela deve buscar a melhor combinação dos lances a serem realizados, tendo a sua frente inúmeras possibilidades. Isso resultará em um ganho, podendo ser material (peças) ou posicional (deixando com uma posição que reverterá para a vitória).”

Christofoletti também destaca que não basta o jogador saber solucionar um problema ou exercício proposto analisando apenas uma parte do tabuleiro de xadrez. Mas é de extrema importância que ele seja capaz de ver o tabuleiro com um todo, sem partes isoladas, pois uma peça depende da outra, e somente essa combinação pode chegar ao tão almejado xeque-mate.

Um dos principais atributos exercitados pela prática do Xadrez é a concentração, fundamental ao enxadrista. Um bom enxadrista deve ser capaz de visualizar várias jogadas a frente, sem mover as peças, até confiar em determinada linha de jogo. Da mesma forma um bom matemático deve ser capaz de abstrair o problema em sua mente, tratando de descobrir sua essência, representando-o no papel quando encontrada a melhor forma de resolvê-lo. Além disso, o cálculo é uma ferramenta indispensável ao enxadrista e ao matemático. No xadrez, o cálculo significa a capacidade do jogador de visualizar as jogadas e suas consequências, construindo uma árvore mental com diversas possibilidades. Quanto maior o número de possibilidades criadas, mais segura será a decisão da jogada a ser efetuada. Pelas palavras do brasileiro Grande Mestre Internacional de Xadrez, Rafael Leitão (2005):

“A verdadeira partida de Xadrez desenvolve-se na mente do jogador; é lá que ocorre a multiplicidade de variantes e estratagemas que estão apenas parcialmente representadas no tabuleiro”.

 

O XADREZ ESCOLAR

Atualmente, a educação busca desenvolver nos estudantes, desde cedo, a capacidade de pensar, estimulando-os a resolver problemas de forma criativa.

Neste aspecto, o jogo de Xadrez é um esporte que possui características importante, as quais podem desenvolver várias funções do cérebro tais como atenção, concentração, julgamento,  planejamento, imaginação, antecipação, memória, análise de situações problemas e criatividade (Rezende, 2005).

A Federação Internacional de Xadrez (FIDE), em parceria com a UNESCO, criou em 1986 o Committee on Chess in Schools (CCS), passando então a desenvolver não somente o xadrez de alto nível, mas também o xadrez como ferramenta pedagógica. A iniciativa teve importante papel de divulgação do ensino e na democratização do xadrez como instrumento pedagógico em todo o mundo.

Em vários países como a Rússia, França, Inglaterra, Argentina, Cuba, Espanha, México e Venezuela, o jogo de xadrez já é uma ferramenta muito utilizada na forma de projetos ou de disciplinas extracurriculares que são incorporados nas escolas buscando seus benefícios, vantagens e virtudes. Esses projetos servem principalmente para ajudar a melhorar o desempenho dos alunos dentro e fora da sala de aula (Sá, 2005). Na Romênia, o xadrez chega a ser uma disciplina escolar obrigatória e as notas em Matemática dependem em 33% do desempenho dos alunos nas aulas de xadrez.

Estudos feitos por esses países justificavam a existência dos projetos, já que observou-se melhorias no rendimento escolar, concentração e atenção dos alunos. Esta também era uma atividade que poderia ser explorada por várias matérias como a História, Geografia, Artes e a Matemática fazendo com as que disciplinas trabalhassem juntas, explorando a transdisciplinariedade.

No Brasil há o caso desenvolvido em 1999 no Centro de Ensino Médio 404 de Santa Maria, no Distrito Federal. Esse colégio sofria com a falta de professores e com isso, grande parte dos alunos ficavam com muito tempo ocioso dentro e fora da escola. A solução encontrada foi trabalhar o xadrez como atividade lúdica e pedagógica nas disciplinas. Foram construídas peças a partir de material reciclável e foram feitas atividades como a importância da reciclagem e problemas de saúde causados pela poluição. Aos poucos os alunos se tornaram mais participativos e sociáveis. Em 2004 com a conquista do segundo lugar no Prêmio Grupo Ciência na categoria nacional, a escola ampliou o projeto e os alunos mais experientes começaram a levar o projeto para outras instituições.

 

 

REFERÊNCIAS:

ALMEIDA, P. N. Dinâmica Lúdica: Jogos Pedagógicos. 1.ed. São Paulo: Edições Layola, 1978. 148p.

PIAGET, J. Seis Estudos de Psicologia. 1.ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987. 146p.

PIMENTA, C. J. C, Xadrez: esporte, história e sua influência na sociedade.

CHRISTOFOLETTI, D. F. A. O jogo de Xadrez na Educação Matemática.

BRASIL, Ministério da Educação e Deporto. Parâmetros curriculares nacionais 5ª e 8ª séries – Matemática para o Ensino Fundamental, Brasília, 1998.

REZENDE, S. Xadrez pré-escolar: uma abordagem pedagógica. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

SÁ, A. V. M. Considerações gerais sobre a aprendizagem de xadrez no ensino fundamental e médio. 2005